domingo, 6 de maio de 2012


calo


calo
os gritos expirados
por meus poros...
calo
aquilo que permeia
a pele repleta
calo
no aperto do sapato
que dói de tanto apertar
por não se gritar!
calo
os sentimentos confusos
obtusos difusos reclusos noturnos
como a tosse tísica que espera
o anoitecer...
calo
o aperto que assola a alma
que busca sua própria erupção
mas cuja tampa impede
a explosão...
casca forte?
não, simples película pronta a romper...

                                                                 © Antônio Jackson de S. Brandão

quinta-feira, 26 de abril de 2012


Enfarte
Explosão
de cólera.
Implosão
de nervos.
Sem dor,
sem aparente calor,
suor...
Pressão alta,
sangue que flui
e influi:
vermelhidão,
rouquidão (dos gritos dados),
ingratidão (das tardes juntas)...

Gordura no sangue
paredes arteriais lotadas.
Berros são dados.
Os canais obstruídos
e repletos se incham, reclamam,
nada flui...
Explosão externa,
Implosão interna...

O ar se torna pouco:
O peito que dói
A mão a seu
encontro vai.
A força diminui
e ao corpo
influi: se cai.
Gordura no sangue,
cabeça cheia,
paredes lotadas:
Enfarte do
miocárdio.


São Paulo, 30/03/1992


Calças curtas no DETRAN

Não entre no departamento
com curtas calças:
É proibido!
É indecente!
não seja decadente - grita o coro -
olhe a seu redor:
não vê os  ventiladores ?
Sinta os defumadores
que exalam fétidos odores...
Não, não entre
com calças curtas!
Olhe o decoro -
grita o coro.

São Paulo, 25/3/1991

domingo, 22 de abril de 2012

la chanson française


a SSM

ah, quanto tempo
o tempo nos privou do olhar?
de repente la chanson française espalha acordes
pelos ares que se misturam
ao doce perfume do vinho seco:
Baco abre caminhos novos em meio
a trilhas escondidas!
mãos delicadas refazem
o que outras romperam sem saber
(precisão olhar respiração curta)
tresloucadas reviram-se, levantam-se:
carregam o fardo dos dias
das obrigações que não
podem ser esquecidas
e la chanson française inebria o ar de momentos
outros que não se foram apesar de distantes:
foram poucos os olhares... mas nada é pouco
quando se sabe que apesar dos anos vão se reencontrar:
Ne me quitte pas… Il faut oublier… Tout peut s'oublier...
não, não se deve esquecer
aquilo que vale a pena!
mesmo que para isso tenha de se esperar
tantos e tantos anos...
taças vazias pedem que se abra
uma outra garrafa

Embu-Guaçu, 22/4/2012

© Antônio Jackson de S. Brandão

sábado, 24 de março de 2012

a madame



promessas desfeitas
à beira de outras
a cumprir

em quantas verdades
se quer acreditar
quando não se conhece
nem o que se pensa?

chama-se de mentiras
aquilo que é verdadeiro:
fuga? raiva? vingança?
esperança em se acreditar
naquilo que se quer:
comodismo de adequação

a verdade é mentira;
a mentira, verdade
quem se diz amigo
nem sempre o é:
destroem-se castelos
erguidos há tempos...

não se importam, ignoram:
seus castelos também haviam ruído!
veem-se cerca
sorrisos de satisfação:
a madame de ontem
tornou-se uma de nós!

© Antônio Jackson de S. Brandão

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

saudade



à HRA

saudade
espaço mágico
instante que faz um momento
voar para
um tempo distante
e tão próximo...
vem, nos mostra
que a solidão não é humana
e que ninguém deve permanecer sozinho no mundo

saudade, vem!
sei que não se importa com aquilo que já não se tem mais
nem com o que se perdeu
mas com o que vem
com o gesto e o olhar perdido
no fundo da lembrança
da amizade sincera que nunca se esvai...
mesmo que se viaje para sabe-se-lá-onde
se se tem um amigo, se tem tudo
já que amizade e saudade
representam muito mais
que sons
semelhantes

Embu-Guaçu, 13/02/2012

© Antônio Jackson de S. Brandão

sábado, 28 de janeiro de 2012

O carneiro tristonho


O carneiro tristonho
no cercado
anda de um lado a outro
desolado.
Sozinho e um tanto
incomodado:
Para! Olha para lá:
cerca.
Olha para cá:
mato.
Conversa com as formigas,
Conversa com os tatus.
Desculpa-se do capim
e o come,
senão morre
de fome.
A garoa que cai,
e o carneiro que vai!
O morro que sobe,
à procura de um gole.
Sua cara preta
vê o horizonte:
Comendo e vendo...
A terra é marrom,
a lã é marrom,
Vai andando.
Na corrente que o prende
tropeça e cai como
indigente.
Levanta-se e cai,
A perna quebrou...
Mas vai,
Não se importou...
Berrou, berrou:
Ninguém se importou...
Chorou, chorou:
Ninguém o consolou...
E vai,
e foi...

São Paulo, maio/1992

© Antônio Jackson de Souza Brandão

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Coitá


As mãos ressequidas
Na cama estendidas
Esperam sofridas o fim
da labuta
Tão bruta que é.

O dia, a noite,
À tarde, na alvorada,
daqui pra lá,
De lá pra cá...
Vem e vão
a pé ou no
Caminhão.

No canavial sob o queimar
dos dias.
Nas mãos, as foices,
que derrubam como coices
para que elas fiquem
Estendidas...

Palavras não falam,
Não deixam, não podem,
pois
É cinquenta a tonelada,
Se disserem A é menos dinheiro,
Se BA é menos ainda,
Ademais...
Que sabem falar?
É fio, é fia, é pai,
É mãi, é tiu, é tia...

Há jovens,
há crinças,
há velhos...
De tanto foicear,
brincando de morte,
Os anos duplicam:
Se dez, parecem vinte,
Se vinte, trinta,
Se trinta,
Quarenta...

Açúcar, álcool, pinga...
Não conhecem açúcar,
Amarga é a sua vida!
O carro não aparece,
sequer nos sonhos,
álcool, lhes disseram, os carro
bebe...
Pinga? Quando dá,
Pra chorá as mágoa.
Namorá?
Não dá,
então dão e é coitá,
coitá e coitá,
pra logo mais os pequeno
trabaiá, trabaiá
e trabaiá...

São Paulo, 22/5/1991

© Antônio Jackson de Souza Brandão

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sentimentos sentidos


Aqui na cabine
O tempo passando
As coisas aparecendo
O vento que sopra lá fora
De leste a oeste
A paz que não chega
E os homens que ainda se matam
Crianças que choram
E o vento que sopra
Aqui, silêncio e paz
Na cabine
O silêncio...
O tempo e o vento
E Érico Veríssimo
Aparece-me na mente.

São Paulo, 17/4/1991

© Antônio Jackson de Souza Brandão

sábado, 21 de janeiro de 2012

Forró na rua


O forró toca no rádio,
as portas escancaradas
dão às muriçocas espaço
para que sedentas procurem
sua vítimas

A lua cheia chama
a atenção: quer brilhar na noite!
Os casais estão na rua
abraçados,
corpos colados, corações dispersos
vampiros de novas emoções

A brisa balança
as árvores suavemente
e suas folhas caem no chão
de nossa mente

O suor escorre,
as nuvens da lua se enamoram
ela nem se importa
majestosa que é

O forró correndo solto,
a poeira que se alevanta
os perfumes se encontram,
se misturam
inebriando o salão:
ah que calor!
O tesão sobe aos ares,
chega à lua
que o invejando se deixa
enamorar...

Nesse enleio uma fina garoa
cai: resultado do amor...
Que prazer! Mas não se deixam
levar

O forró contamina as ruas:
janelas se abrem,
as estrelas sorriem
brilhando por entre as nuvens
enamoradas da lua...

As muriçocas também fazem
sua própria festa:
sugam sangue
até encherem a pança...
levam porrada
e vão felizes e satisfeitas
ao muricitério

Parnaíba/PI, 17/1/1995

© Antônio Jackson de Souza Brandão

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Sol e sal


Fogo, mar, ar.
Luz, luar, sonhar...
Vento lento.
Consolo; solo vazio,
céu aberto, sorriso franco,
hálito puro:
Você...
Ondas que beijam a praia,
Chuva que me abraça agora
sentindo o vazio do escuro
buscando
um porto seguro:
Você...
Quem, alguém,
além de mim,
aquém d’agora
numa hora qualquer...
Estrela a brilhar:
Fogo.
Sal a cortar sob o sol:
Mar.
Pulmões a respirar:
Ar.
Pupilas se contraem:
Luz.

No céu do grande astro refletir:
Luar.
Criar, viver, humano ser:
Sonhar.
Ficar na praia, sob o céu,
ver estrelas, sentir o mar,
o luar a brilhar
junto ao fogo que aquece,
o vento que transparece a...
desejar,
a ver
e querer...
Você.

São Paulo, 03/03/1992

© Antônio Jackson de Souza Brandão

domingo, 15 de janeiro de 2012

estou triste


sentimento estranho
mistura de tantas
outras sensações...
na areia levantamos castelos
dedicamos instantes preciosos
de um tempo perdido em meio ao mar bravio
esquecemos, porém, que a
maré se levanta
e o que era eterno é carregado
pra longe de nós...
amizades amores carinhos
cultivamos uma rosa preciosa em botão, um descuido
a lagarta a devora
regressamos, sorriso nos lábios, ela se abriu!
já não está mais lá se foi, foi tirada
pra longe muito longe...
que dor sentimos, a tristeza inunda
o castelo de nosso coração
nem os amigos restaram:
nossas palavras se foram e já não os atingem mais

© Antônio Jackson de Souza Brandão

sábado, 14 de janeiro de 2012

laços soltos



laços soltos
flamulam pelo ar
pontas separadas que
poderiam se unir
reunir o que estava perdido
no ar disperso!
pontas desatadas
nós não refeitos
(sequer haviam se encontrado
num passado em que sonhos e fantasias
de eterna juventude vagavam
pelo mar!)
perfumes novos me cercam nova memória...
vejo que duas pontas nunca se atarão:
o medo de não sei quê é maior
que a coragem de buscar felicidade
a mesma que esvoaça e se espalha com o vento

Embu-Guaçu, 14/01/2012

©Antônio Jackson de Souza Brandão

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Mulher


à DSS

Sentidos sem razão,
vícios desfeitos,
coração sem batidas
que são estranhas,
mas que queimam nossas entranhas!
Mulher de olhar suspenso,
boca que revela
o hálito morno d’alegria.
Suspirar não dá,
cabelo que envolve
a fronte amena
por trás de seu sorriso.

Cegueira paixão
que ontem conheci menina
e hoje, mulher...

Mulher de braços ardentes
de mãos suaves:
envolventes, sensuais...
que nos prende
nos enleios do fervor,

Não, não quero escrever emoção,
porém a secura
é estéril,
não nos deixa às claras dizer.

Que é às claras?
Podemos da escuridão
ver a verdade
impressa nos olhos
escusos da luz!

Ah mãos-olhos que veem
melhor que o tato
no fato dali.

E noites que perdemos
E o tempo que passou,
mas não levou
a sensação de
juntos estarmos!

Roda, roda vento!
Tempo, tempo corra!
Nos leve para longe
para o campo de paredes brancas,
quero ver o vestido voar
e com ele seu cabelo.
Anda, anda meu bem
deixa que eles voem...
Sua alma
a vejo também voar,
seus braços quero
sentir.
© Antônio Jackson de S. Brandão

São Paulo, 15/5/1994

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Chapéu de palha


Chapéu de palha na cabeça.
Pele vermelha
do sol escurecida.
Na mente um algo
entorpecido
de dor, de pranto;
da luz do não querer,
da luz sumida
do esquecer...

Caboclo...

das rugas envelhecidas,
das mãos calejadas,
do cabelo empastado
do suor mal-molhado
do ser não amado
e Ser esquecido.
© Antônio Jackson de Souza Brandão