sábado, 24 de outubro de 2009

Há anos luz...


Antônio Jackson de Souza Brandão

Ficar velho é tão bom... essa afirmação pode parecer paradoxal para alguns, mas isso vai depender muito do ponto de vista empregado. Isso fica claro quando fico pensando em como eu era e como sou hoje, além, é claro, de outros fatores como saúde, relação social, amizades, estabilidade financeira...
Quando se é adolescente, por exemplo, não se vê a hora de se ter total liberdade dos pais. No entanto, essa é muito relativa, já que ainda se necessita dos velhos para tudo, principalmente como porto seguro, aonde se dirige em meio à tempestade. A pseudo-liberdade total dispensaria isso, já que pressupõe a não necessidade de ninguém, mas a autosuficiência (mas será que ela realmente existe? Olha a idade fazendo a diferença!).
Quando falo em ficar velho, é óbvio que não falo, emancipar-se, ter dezoito ou vinte anos, digo ficar velho mesmo: época em que a maturidade vem, e com ela certos conhecimentos que nem de longe o mais esperto dos adolescentes pode possuir, já que não tem o essencial: o tempo vivido que livro nenhum pode nos passar.
Hoje, por exemplo, está um dia maravilhoso de sol, fui a meu jardim e arranquei uma dezena de pragas de meu jardim – para os desavisados, praga são aquelas plantinhas que parecem grama, mas não são, têm cor diferente e se espalha por todo o gramado dando-lhe uma aparência (para quem entende, ou finge entender, como eu!) horrível –; pois bem, estava no jardim e ouvia uma música que fez muito sucesso nos anos 70, It's A Heartache, cantada por Bonnie Tyler.
Ela me fez viajar para minha infância, quando visitava meus tios e meus primos, então jovens em plena atividade na época da discoteca. Mas não satisfeito, ouvi duas ou três vezes, até enjoar. Depois ouvi um Cd dos 90, do Terra Samba: não tive como não sambar... sambei até suar. Ah, para quem não me conhece, sou assim mesmo: eclético, escuto (quase) tudo.
Pode parecer ridículo um velho ficar sambando como bobo, mas é isso que faz a grande diferença: a gente perde certas vergonhas, não se preocupa muito com o que esta ou aquela pessoa vai dizer. É verdade que hoje, a garotada diz conhecer tudo (como sexo, por exemplo, coisa impensável – explicitamente falando – há algumas décadas), mas ainda mantém aquele, podemos dizer, pudor, certa vergonha, apesar de alguns fazerem questão de mostrar o contrário: ainda está em formação, ainda não conhece plenamente seus sentimentos, suas emoções e reações (como se os velhos também os conhecessem em plenitude!). Aí está uma grande diferença: o conhecer-se (melhor) ou ainda não se conhecer totalmente.
Para encerrar, ia me esquecendo do que eu ouvi muito os alunos falarem: todo velho fala que ser velho é bom porque não tem mais a juventude que eles têm. Pode até ser verdade por um aspecto: deixa-se de ser um sonhador para estar sempre com os pés no chão, por outro lado os velhos de quarenta ou mais anos de hoje têm um fôlego que deixam aqueles velhinhos da mesma idade – que há algumas décadas punham o pijama no lugar do uniforme que utilizaram grande parte de sua vida – a anos luz, afinal não se tinha outra opção que ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.